Josiane Benedet
As opiniões se dividem quando o assunto é avaliação. Segundo Hamilton Werneck, pedagogo, escritor, conferencista e doutorando em educação, há uma contradição nas escolas brasileiras em relação a esse tema. “Usa-se o termo avaliação e, na realidade, se examina, o que é muito diferente.”
Profissão Mestre – O que é um processo de avaliação?
Hamilton Werneck – Existem duas palavras que precisam ser salientadas nesta pergunta: avaliação e processo. Avaliar significa diagnosticar, verificar se o educando aprendeu, em que grau aprendeu e, portanto, não é uma ação pontual que ocorre somente quando se faz um teste. Avaliar é verificar quais reforços são necessários para que o educando recupere o que não aprendeu em determinado período. Avaliar não implica em classificar. Pergunta-se: classificar para quê? O que a classificação acrescenta no aprendizado do aluno?
Nós não estamos fazendo concurso para preenchimento de vagas numa instituição pública ou fundacional. Processo enfatiza o caminho usado, não um momento final de verificação. Quando temos uma visão de “processo”, estamos avaliando continuamente, todos os dias, inclusive através do sistema de observação direta do educador quando os educandos estão realizando alguma tarefa.
PM – Quais são os objetivos da avaliação?
HW – Verificar o que um aprendeu e o que o outro não aprendeu. Quem vê a avaliação como um meio para enviar notas para a secretaria, cumpre um dever puramente burocrático, não pensa na inclusão dos educandos, geralmente não é compromissado com eles e pensa que a missão de ensinar acaba quando a aula foi ministrada.
Mas a missão de aprendizagem não acaba enquanto o aluno não aprender, portanto, não cabe separar as coisas: professor é uma coisa e aluno é outra. Essa é a visão cartesiana questionada por Platão muito antes de René Descartes, em O Sofista, quando ele condena essa mania de tudo separar. Quem pensa que está avaliando para dar nota, na verdade, está examinando, o que é bem diferente de avaliar.
PM – E quais são as diferenças entre avaliar e examinar?
HW – O ato de examinar é pontual, não inclui processo, geralmente tem hora e data marcada no calendário. Mas quando analisamos nossas escolas, vemos examinação, e não avaliação, porque esta sempre foi a cultura que assimilamos desde os tempos da chegada dos colonizadores ao Brasil.
Estamos impregnados de examinação como os povos da Roma Antiga estavam impregnados de escravidão porque viviam cercados de escravos por todos lados. A avaliação é feita para buscar novos caminhos de reposição do conhecimento, visando incluir os educandos entre os que aprenderam.
PM – Quais são os principais erros cometidos pelas escolas em relação a esse assunto?
HW – Os exames, com a aplicação das médias que consideram o período em que o educando não sabia um determinado conteúdo, favorecem a exclusão da escola. A questão da avaliação no Brasil tornou-se semântica. Usa-se o termo avaliação e, na realidade, se examina.
Os principais erros cometidos nas organizações de provas e exames estão contidos na desconsideração pelo contexto. Para sermos bons educadores precisamos saber três coisas importantes: sabermos ensinar; sabermos quem é João; sabermos em que contexto João vive.
A falta de contextualização é um grande erro tanto quanto o desconhecimento do educando e do conteúdo que ministramos. Outro erro muito grave é o da homogeneidade. Queremos que todos saibam do mesmo modo, aprendendo dentro dos mesmos tempos e parâmetros, tudo de maneira uniforme, como se nossa aula fosse uma fábrica do início do século XX: provas homogêneas buscando medir conhecimentos homogêneos sem a consideração dos vários contextos dos educandos; querer que turmas e alunos diferentes tenham a mesma velocidade ao aprender para poderem responder às mesmas questões de uma mesma prova.
Por fim, o maior de todos os erros está na desvinculação daquilo que se ensina em relação à vida dos que aprendem.
PM – Quais são as principais conseqüências, para os alunos, de um processo equivocado?
HW – As conseqüências são claras: mais evasão e repetência por causa dos desestímulos; insistência, sem estudos mais aprofundados, da permanência dos conteúdos programáticos distantes da realidade; pouca coisa é atual e útil para quem estuda; a nomenclatura predomina porque enche, facilmente, as questões de uma prova; os educandos seguem um caminho que não leva a lugar algum (decoram, fazem prova e, depois, esquecem). Isso significa que tempo, verba e energia humana são desperdiçados no decorrer dos anos da escolaridade dos educandos brasileiros.
PM – A avaliação deve ser feita para verificar o que o aluno sabe ou o que ele não sabe?
HW – A avaliação é feita para constatar as duas coisas com o complemento que envolve o grau do saber e do não saber. Corrigir é uma coisa bem diferente de assinalar erros. A escola tradicional está fixada no negativo. Marca erros e, depois de muitos anos, o educador tem a impressão de que a educação não tem jeito porque ele só vê erros pela frente. O professor que assim age passa a olhar para dentro de si como um incapaz de ensinar.
Entretanto, se ele olhar para o que os seus alunos aprenderam graças à sua competência terá, certamente, uma auto-estima mais elevada. Olhando os aspectos que indicam a assimilação por parte dos educandos, podemos nos concentrar nas aulas seguintes, na reposição daqueles conhecimentos não assimilados, nos exercícios para fixar mais o que representa dificuldade e desenvolvermos a avaliação em processo, através das observações dos trabalhos individuais ou em grupo. Essa avaliação exigirá do educador uma capacidade de estar sempre em observação.
Desenvolver com os educandos um trabalho em grupo e ficar sentado na mesa fazendo outra coisa, leva pelo espaço e tempo uma enorme energia de ambos. O trabalho, feito ou não, para quase nada serviu. O educador continua sem saber quem sabe, quem reaprendeu e quais as questões que ficam em aberto. O trabalho em grupo como um processo de aprendizado e avaliação necessita da presença do educador em contato contínuo com os grupos para esclarecer, responder, ouvir e acompanhar. Assim ele saberá quem sabe e quem não sabe e o que sabem e o que não sabem.
PM – Qual a maneira mais eficiente para avaliar algo intangível?
HW – É importante definir bem os termos. Tangível, em nossa resposta, é aquilo que é palpável, material, como os carros e prédios de uma empresa; intangível será o que não se toca, não se pesa, mas que tem uma força maior do que o tangível, tal como o nome de uma empresa, sua logomarca, seu conceito no mercado.
Se compararmos com alguma taxonomia ligada à avaliação, diríamos que tangível está para objetivos cognitivos, e intangível para os objetivos afetivos. Sempre é mais difícil avaliar os objetivos afetivos. O educador necessitará de muita atenção para perceber se um educando está mais predisposto a aprender, está com mais prontidão e atenção em relação àquela disciplina. Observar o que os educandos fazem dentro de um conjunto de conteúdos, além do que o professor está exigindo, será um modo de avaliar a resposta desse educando. Porém, não a resposta a uma pergunta, mas a resposta com mais leitura – além da exigida – mais trabalho livre, além daquele precisado pelo educador.
Finalmente, quando se percebe que o educando aderiu aos valores que a disciplina apresenta, mesmo que tais adesões não sejam medidas através de perguntas nas provas, chegaremos à culminância dos objetivos afetivos ou do intangível, porém, mais importante do que saber a métrica dos versos elizabetanos.
PM – Qual é a melhor maneira de avaliar o crescimento humano de um aluno? A prova é uma delas?
HW – Esta pergunta reflete a visão predominante da educação brasileira: instrucionista. Se, de um lado, o positivismo disseminou a educação, sobretudo pública, em alguns Estados brasileiros, por outro, preocupou-se com a instrução, segmentando-a da educação. Como os positivistas não conseguem compreender o “EU” pessoal interagindo com os demais, houve, e há, uma dificuldade grande para se formar cidadãos comprometidos com as pessoas e com o meio em que vivem.
A maneira de avaliar um educando, em seu crescimento humano, está além da prova. Muito além. Só fará essa avaliação quem com ele conviver, solidarizar-se, sentindo e vivendo suas alegrias e tristezas. Sem a alteridade em pleno funcionamento, não teremos transformações necessárias desse Homo sapiens demens, carente de amor e hospitalidade.
As opiniões se dividem quando o assunto é avaliação. Segundo Hamilton Werneck, pedagogo, escritor, conferencista e doutorando em educação, há uma contradição nas escolas brasileiras em relação a esse tema. “Usa-se o termo avaliação e, na realidade, se examina, o que é muito diferente.”
Profissão Mestre – O que é um processo de avaliação?
Hamilton Werneck – Existem duas palavras que precisam ser salientadas nesta pergunta: avaliação e processo. Avaliar significa diagnosticar, verificar se o educando aprendeu, em que grau aprendeu e, portanto, não é uma ação pontual que ocorre somente quando se faz um teste. Avaliar é verificar quais reforços são necessários para que o educando recupere o que não aprendeu em determinado período. Avaliar não implica em classificar. Pergunta-se: classificar para quê? O que a classificação acrescenta no aprendizado do aluno?
Nós não estamos fazendo concurso para preenchimento de vagas numa instituição pública ou fundacional. Processo enfatiza o caminho usado, não um momento final de verificação. Quando temos uma visão de “processo”, estamos avaliando continuamente, todos os dias, inclusive através do sistema de observação direta do educador quando os educandos estão realizando alguma tarefa.
PM – Quais são os objetivos da avaliação?
HW – Verificar o que um aprendeu e o que o outro não aprendeu. Quem vê a avaliação como um meio para enviar notas para a secretaria, cumpre um dever puramente burocrático, não pensa na inclusão dos educandos, geralmente não é compromissado com eles e pensa que a missão de ensinar acaba quando a aula foi ministrada.
Mas a missão de aprendizagem não acaba enquanto o aluno não aprender, portanto, não cabe separar as coisas: professor é uma coisa e aluno é outra. Essa é a visão cartesiana questionada por Platão muito antes de René Descartes, em O Sofista, quando ele condena essa mania de tudo separar. Quem pensa que está avaliando para dar nota, na verdade, está examinando, o que é bem diferente de avaliar.
PM – E quais são as diferenças entre avaliar e examinar?
HW – O ato de examinar é pontual, não inclui processo, geralmente tem hora e data marcada no calendário. Mas quando analisamos nossas escolas, vemos examinação, e não avaliação, porque esta sempre foi a cultura que assimilamos desde os tempos da chegada dos colonizadores ao Brasil.
Estamos impregnados de examinação como os povos da Roma Antiga estavam impregnados de escravidão porque viviam cercados de escravos por todos lados. A avaliação é feita para buscar novos caminhos de reposição do conhecimento, visando incluir os educandos entre os que aprenderam.
PM – Quais são os principais erros cometidos pelas escolas em relação a esse assunto?
HW – Os exames, com a aplicação das médias que consideram o período em que o educando não sabia um determinado conteúdo, favorecem a exclusão da escola. A questão da avaliação no Brasil tornou-se semântica. Usa-se o termo avaliação e, na realidade, se examina.
Os principais erros cometidos nas organizações de provas e exames estão contidos na desconsideração pelo contexto. Para sermos bons educadores precisamos saber três coisas importantes: sabermos ensinar; sabermos quem é João; sabermos em que contexto João vive.
A falta de contextualização é um grande erro tanto quanto o desconhecimento do educando e do conteúdo que ministramos. Outro erro muito grave é o da homogeneidade. Queremos que todos saibam do mesmo modo, aprendendo dentro dos mesmos tempos e parâmetros, tudo de maneira uniforme, como se nossa aula fosse uma fábrica do início do século XX: provas homogêneas buscando medir conhecimentos homogêneos sem a consideração dos vários contextos dos educandos; querer que turmas e alunos diferentes tenham a mesma velocidade ao aprender para poderem responder às mesmas questões de uma mesma prova.
Por fim, o maior de todos os erros está na desvinculação daquilo que se ensina em relação à vida dos que aprendem.
PM – Quais são as principais conseqüências, para os alunos, de um processo equivocado?
HW – As conseqüências são claras: mais evasão e repetência por causa dos desestímulos; insistência, sem estudos mais aprofundados, da permanência dos conteúdos programáticos distantes da realidade; pouca coisa é atual e útil para quem estuda; a nomenclatura predomina porque enche, facilmente, as questões de uma prova; os educandos seguem um caminho que não leva a lugar algum (decoram, fazem prova e, depois, esquecem). Isso significa que tempo, verba e energia humana são desperdiçados no decorrer dos anos da escolaridade dos educandos brasileiros.
PM – A avaliação deve ser feita para verificar o que o aluno sabe ou o que ele não sabe?
HW – A avaliação é feita para constatar as duas coisas com o complemento que envolve o grau do saber e do não saber. Corrigir é uma coisa bem diferente de assinalar erros. A escola tradicional está fixada no negativo. Marca erros e, depois de muitos anos, o educador tem a impressão de que a educação não tem jeito porque ele só vê erros pela frente. O professor que assim age passa a olhar para dentro de si como um incapaz de ensinar.
Entretanto, se ele olhar para o que os seus alunos aprenderam graças à sua competência terá, certamente, uma auto-estima mais elevada. Olhando os aspectos que indicam a assimilação por parte dos educandos, podemos nos concentrar nas aulas seguintes, na reposição daqueles conhecimentos não assimilados, nos exercícios para fixar mais o que representa dificuldade e desenvolvermos a avaliação em processo, através das observações dos trabalhos individuais ou em grupo. Essa avaliação exigirá do educador uma capacidade de estar sempre em observação.
Desenvolver com os educandos um trabalho em grupo e ficar sentado na mesa fazendo outra coisa, leva pelo espaço e tempo uma enorme energia de ambos. O trabalho, feito ou não, para quase nada serviu. O educador continua sem saber quem sabe, quem reaprendeu e quais as questões que ficam em aberto. O trabalho em grupo como um processo de aprendizado e avaliação necessita da presença do educador em contato contínuo com os grupos para esclarecer, responder, ouvir e acompanhar. Assim ele saberá quem sabe e quem não sabe e o que sabem e o que não sabem.
PM – Qual a maneira mais eficiente para avaliar algo intangível?
HW – É importante definir bem os termos. Tangível, em nossa resposta, é aquilo que é palpável, material, como os carros e prédios de uma empresa; intangível será o que não se toca, não se pesa, mas que tem uma força maior do que o tangível, tal como o nome de uma empresa, sua logomarca, seu conceito no mercado.
Se compararmos com alguma taxonomia ligada à avaliação, diríamos que tangível está para objetivos cognitivos, e intangível para os objetivos afetivos. Sempre é mais difícil avaliar os objetivos afetivos. O educador necessitará de muita atenção para perceber se um educando está mais predisposto a aprender, está com mais prontidão e atenção em relação àquela disciplina. Observar o que os educandos fazem dentro de um conjunto de conteúdos, além do que o professor está exigindo, será um modo de avaliar a resposta desse educando. Porém, não a resposta a uma pergunta, mas a resposta com mais leitura – além da exigida – mais trabalho livre, além daquele precisado pelo educador.
Finalmente, quando se percebe que o educando aderiu aos valores que a disciplina apresenta, mesmo que tais adesões não sejam medidas através de perguntas nas provas, chegaremos à culminância dos objetivos afetivos ou do intangível, porém, mais importante do que saber a métrica dos versos elizabetanos.
PM – Qual é a melhor maneira de avaliar o crescimento humano de um aluno? A prova é uma delas?
HW – Esta pergunta reflete a visão predominante da educação brasileira: instrucionista. Se, de um lado, o positivismo disseminou a educação, sobretudo pública, em alguns Estados brasileiros, por outro, preocupou-se com a instrução, segmentando-a da educação. Como os positivistas não conseguem compreender o “EU” pessoal interagindo com os demais, houve, e há, uma dificuldade grande para se formar cidadãos comprometidos com as pessoas e com o meio em que vivem.
A maneira de avaliar um educando, em seu crescimento humano, está além da prova. Muito além. Só fará essa avaliação quem com ele conviver, solidarizar-se, sentindo e vivendo suas alegrias e tristezas. Sem a alteridade em pleno funcionamento, não teremos transformações necessárias desse Homo sapiens demens, carente de amor e hospitalidade.
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