domingo, 13 de março de 2011

Primeiro dia de aula de uma professora

Primeiro dia de aula de uma professora. Alunos começam a chegar. Ela faz a chamada Um aluno chega mais tarde e "manda" a professora colocar um pontinho de presença pra ele. Ela não o "obedece". O aluno diz: "Você é nova aqui, né? Não sabe que no noturno todo mundo trabalha e chega atrasado mesmo?". Aluno tira nota abaixo da média, é reprovado. Vai até a professora tentar negociar. Professora não aceita negociações. Aluno ameaça: "Será que vou precisar falar com a diretora para você mudar de idéia?”. Essas não são cenas de filme. É um cenário real e muito comum.
Mas a verdade é que assim precisa ter muita tolerância com faltas, prazos para entrega de trabalho, atrasos, muitos alunos escrevem mal, não conseguem alcançar o nível de eficiência que o mercado exige.
Uma professora atribui a postura abusiva dos alunos a uma característica da geração: a falta de responsabilidade e de noção de limites. "Eles têm uma atitude passiva: esperam que o professor faça tudo por eles, acham que devemos agir como se fôssemos mãe deles. Têm dificuldade de assumir as rédeas da própria vida, bancar as conseqüências de suas atitudes."esse comportamento está também relacionado a uma postura do adolescente rebelde sem causa, que reclama sem ter informação sobre os seus reais direitos e deveres, sem saber o seu papel e o do professor.
Pacto de mediocridade
Mas a responsabilidade por posturas arrogantes ou exigências descabidas não é só do aluno. Muitas escolas dão respaldo a essas atitudes. "É o pacto de mediocridade",
"Há uma pressão coletiva, tanto por parte dos alunos, quanto por parte da direção para que tenhamos muita tolerância, flexibilidade e façamos tudo para agradar o aluno de forma a mantê-lo na escola, com medidas e legislação que tornem o estudo mais fácil e menos rigoroso", percebe que a coordenação dá uma imensa liberdade aos alunos e prejudica a autonomia dos docentes, que são obrigados a compor as notas com trabalho e provas de múltipla escolha, para facilitar. Além disso, a instituição estabelece notas mínimas que podem ser dadas ao estudante.
Muitas vezes, as situações extrapolam questões éticas e legais: tem professor que reprova o aluno e, no semestre seguinte, percebe que ele foi "misteriosamente" aprovado. É a reprovação do professor e à aprovação administrativa. Ou então, o docente dá uma nota X e recebe orientações vindas "de cima" para que aumente "mais dois pontinhos" naquela nota. Esses também são casos reais. "Não vemos alternativa se não ficarmos quietos.
Os alunos têm uma arma poderosa para "mandar e desmandar" no professor: Quem tem um estilo mais sisudo, por mais que dê o conteúdo com eficácia, é reprovado pelo diretor, porque fala a verdade.

O outro lado
Exageros antiéticos a parte, existe uma questão que vai além da relação mercadológica que a faculdade-empresa estabelece com o aluno-cliente: o fato de adaptar a realidade da sala de aula à realidade do estudante. "No Brasil, muitos alunos precisam trabalhar além de estudar, e acabam deixando a faculdade em segundo plano", diz Ryon Braga, consultor de gestão de instituições de ensino, e presidente da Hoper, empresa especializada em pesquisa e análise de mercado no setor educacional.
"No mundo de hoje, ninguém tem mais o seu tempo dedicado a uma única coisa. O ser humano está sobrecarregado. Isso vai interferir em qualquer relação. Não adianta ficar cobrando. Tem que aprender a construir uma relação levando o contexto social em conta.” É preciso compreender que hoje em dia todos nós somos influenciados a estabelecer uma relação de consumo com a vida em geral.
Além disso, há também uma grande cobrança com relação à pontualidade do professor, o planejamento das aulas, sem dá validação do nosso trabalho.
Docentes e gestores dão algumas dicas para melhor lidar com a questão:
- Desde o primeiro dia de aula, tanto a escola quanto o professor, devem esclarecer suas regras e o motivo delas.
- Logo no início das classes, o professor deve dar uma lição do que é Ética, e reforçar principalmente a ética em sala de aula.
- Diante de uma exigência abusiva ou ameaça, o professor deve ser firme, e não demonstrar medo ou insegurança. Para tanto, é preciso estar bem claro para si próprio os direitos, deveres e a filosofia da escola.
- A escola deveria avaliar o professor por diversos ângulos, não só pelo do aluno. Para analisar o professor. Seria interessante também, haver uma instância formal responsável por receber reclamações dos alunos, professores e registrando todo processo.
- Ter uma explanação clara entre a função de cada um dentro da escola.
- Estimular os alunos a tomar iniciativa, mostrar que o papel do professor é orientar, mas não determinar o caminho. E que faz parte do crescimento do aluno como cidadão ir buscar respaldo para o seu ensino em leituras, para ter subsídios até para questionar o professor em sala de aula.
- Diante de uma postura arrogante do aluno, o professor deve ser diplomático. "Não dá para descarregar de volta. Tem que saber negociar, ouvir. Porque muitas vezes o aluno só quer desabafar",
- Explicar para o aluno, que cabe a uma instituição de Educação preocupar-se com a formação dele como cidadão, não só ser uma mera transmissora de informação.

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